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ATAQUE & DEFESA ASTRAL 2

: Heren Fey : ._
*Capítulo IV - De Imprecatione et Custodia*
_Das Demandas, dos Testemunhos e do Direito Astral_
> "Nenhum espírito pode transgredir a lei de sua própria esfera, o mago negro utiliza as mesmas leis do mago branco, mas inverte a direção da corrente."
Preâmbulo - O Quarto Selo
Se o Olho Gordo era o ataque do profano que ignora que pratica magia, a Demanda é o ataque daquele que sabe que a pratica e, ainda assim, escolhe usá-la para a destruição. É aqui que o estudo da defesa astral deixa de ser um exercício simplificado de proteção áurica e torna-se jurisprudência espiritual.
I. Da Mecânica da Demanda - Magia Simpática e o Testemunho
O ato de demandar é, em sua base, um ato de alta magia simpática. O feiticeiro, incapaz de atingir seu alvo pelo plano físico, busca atingi-lo pelo plano astral, onde distância não existe, mas a sintonia é tudo.
Para que uma força lançada no Astral não se dissipe como fumaça ao vento, ela precisa de um endereço. Este endereço, na linguagem dos antigos grimórios, chama-se Testemunho, ou _Phylacterium_.
O que o vulgo pensa ser "material" para o feitiço é, na verdade, um condensador de sintonia. Uma foto, um nome completo escrito com data de nascimento, um objeto íntimo tocado por longo tempo - um anel, uma pulseira, um fio de cabelo, um pedaço de unha, uma peça de roupa com suor. Quanto mais impregnado da vida eletromagnética do alvo, mais perfeito é o testemunho.
Bardon explica: todo corpo físico exala constantemente fluido elétrico e magnético. Este fluido impregna tudo que tocamos. Um objeto de valor sentimental é um acumulador carregado por anos. Uma fotografia, para um magista treinado, não é papel; é uma janela fluídica aberta.
Sobre este testemunho, o demandante projeta sua intenção. Mas a intenção humana sozinha é fraca para quebrar uma aura bem estruturada. Por isso, toda demanda de peso convoca uma Força Terceira. E é aqui que reside o perigo real. O feiticeiro evoca, por pactos, por pagamento, por afinidade, uma entidade - seja um desencarnado inferior preso à esfera terrestre, uma força elemental desequilibrada, um daemon do antigo goécia, ou uma máscara deturpada de entidades de matriz Afro ou de outras correntes, despidas de sua luz e reduzidas à sua face colérica.
Ele oferece a esta entidade o testemunho como mapa e sua própria vitalidade, ou oferendas materiais, como combustível. A entidade, então, é despachada: "Vai até ele. Destrói sua saúde. Fecha seus caminhos. Trás desgraça."
O intuito de toda demanda injusta é sempre o mesmo, e Levi já o catalogava: fazer o alvo adoecer, empobrecer, perder o amor, bloquear-lhe os caminhos de Júpiter e Vênus, até que sua estrutura psicológica ceda. Não é a morte física que o feiticeiro mesquinho busca em primeiro lugar, é a ruína da vontade.
II. Do Tribunal Invisível - Por que nem toda Demanda funciona
Se toda demanda funcionasse como prescrito em livros de feitiçaria vendida na esquina, a humanidade não teria chegado ao século XXI. O planeta seria um pandemônio. A razão pela qual o mundo espiritual não é um caos é que ele não está largado às traças. Ele possui leis.
É preciso compreender um axioma: todo homem, mesmo o ateu mais convicto, mesmo aquele que nunca acendeu uma vela, possui guardiões.
Chamem como quiserem: Anjo Guardião, Eu Superior, Espíritos Ancestrais, Exu de Guarda, Sombra Protetora. Na linguagem de Bardon, são as inteligências superiores ligadas a você e à corrente espiritual de sua família, que velam por seu equilíbrio cármico. Elas podem estar adormecidas, mas existem.
Quando uma demanda injusta é lançada - injusta porque o alvo não cometeu ato algum que, pela Lei de Causa e Efeito, justifique aquela pancada - ocorre um processo que nos círculos iniciáticos se chama Colisão de Correntes.
Vamos descrever o mecanismo:
A entidade demandada, munida do testemunho, chega ao campo áurico do alvo. Ela tenta penetrar. Se o alvo é uma pessoa negligente com sua própria vida espiritual, que vive de forma mesquinha, arrogante, acumulando débitos astrais, sua aura está cheia de fissuras. A entidade encontra uma porta entreaberta e entra, instalando-se como um parasita. O homem começa a sentir aquilo que descrevestes: dores que vêm e vão sem causa médica, pesadelos de perseguição, brigas que de pequenas discussões se tornam violências desproporcionais, uma apatia que o impede até de cuidar da higiene.
Mas se o alvo, mesmo sem ser ocultista, possui uma conexão profunda e viva com seus guardiões - porque reza, porque é justo, porque honra seus ancestrais, porque cultiva uma devoção diária a uma forma divina maior - o cenário muda inteiramente.
A entidade demandada não encontra um homem sozinho. Ela encontra um templo guardado.
Os guardiões se apresentam na fronteira áurica. E ali, no astral, ocorre um diálogo que não é feito de palavras, mas de peso. O guardião lê o testemunho da demanda e lê o Livro de Vida do seu protegido. Se não há dívida que justifique aquele ataque, ele ergue o que Levi chamava de Espada da Justiça.
À entidade demandada não é permitido entrar.
Não é uma questão de força bruta, de quem grita mais alto. É uma questão de direito. A entidade, sendo inferior e estando a serviço de uma vontade humana injusta, não possui autorização superior para transgredir uma aura selada pela Justiça. Ela deve recuar. E pela lei do choque de retorno, ela volta ao seu emissor, faminta, cobrando o preço do serviço não prestado. É por isso que o feiticeiro de demandas injustas termina, invariavelmente, corroído por suas próprias obras.
A demanda só tem permissão de entrada quando o alvo, por sua própria arrogância e negligência, já abriu a porta por dentro.
III. Da Vigilância e da Couraça Viva - Como se guarda um Laboratório
Diante disso, o que pode fazer o homem que suspeita ser alvo de demanda?
Não se defende do invisível com desespero, mas com atenção. O ataque astral nunca começa grande. Ele começa sutil, como uma infiltração.
*Primeiro - A Observação de Si:* Observa como levas tua vida. Nota as mudanças sutis que se acumulam. Aquela dor de cabeça que não passa, o sonho recorrente com lodo, com cobras, com perseguição, o aumento da irritabilidade em casa, onde tudo vira briga por nada. O laboratório deve ter seus instrumentos sempre calibrados. A negligência é a primeira fissura.
*Segundo - A Leitura do Oráculo:* Quando o sutil se torna visível, quando a violência emerge, quando tudo começa a dar errado em sequência e a vontade de viver e de cuidar de si some, não te isoles. Consulta o Oráculo. Seja o Tarô, sejam os Búzios, seja a clarividência de um irmão mais experiente. Não para saber "quem te fez", mas para saber qual a natureza do desequilíbrio e qual o remédio adequado. Cada veneno exige seu antídoto.
*Terceiro - A Continuidade da Grande Arte:* Aqui está a defesa suprema, e é a mesma de todos os capítulos: nunca pare de fazer teus rituais só porque estás bem. O erro do profano é rezar apenas na tempestade.
O caminho da Grande Arte é contínuo. Cada devoção, cada banimento, cada agradecimento, cada exercício feito sob a regência da divindade à qual és devoto, não é um pedido; é um fio. E dia após dia, tu teces com esses fios um manto. Uma couraça viva.
O método dos antigos para firmar esta couraça no espaço físico era simples em sua essência e por isso universal, podendo ser aplicado a qualquer sistema - seja na Bruxaria, na Magia do Caos ou na Alta Cabala: o magista abre o Círculo, evoca os quatro Grandes Reis Elementais nos quatro cantos com suas representações, evoca sua Divindade Tutelar, e apresenta-lhe pedras e cristais - minerais que por natureza já são condensadores de proteção - declarando em voz clara qual seu propósito. Ele não está pedindo que a pedra o proteja; ele está consagrando a pedra com a sua divindade, para que a virtude natural da pedra se torne veículo daquela Força Maior.
Ao distribuir estas pedras ao redor de sua morada, enterrando-as ou dispondo-as, ele está fincando marcos astrais. Mesmo que as pedras físicas se percam com o tempo, o ato mágico sob a regência da Força Maior permanece firmado no local como uma muralha invisível. Não é superstição, é condensação de espaço consagrado.
Rituais sob a regência de uma Forma Maior dão mais que resultados: dão conexão. E é esta conexão explícita que garante que, quando a demanda injusta de um idiota que não gosta de ti chegar à tua porta, ela não encontrará um homem sozinho. Encontrará um laboratório guardado por Deuses.
Não sejas idiota, mesquinho ou arrogante. Não dês ao teu inimigo o direito que ele não tem.
- Todo homem e mulher é um laboratório.
_Fim do Capítulo IV_
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