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CERNUNNOS - O SENHOR DO TORQUE E O ARQUÉTIPO DO DEUS CORNÍFERO

Introdução - O Deus que não tem nome

Há deuses que nos deixaram templos e há deuses que nos deixaram apenas um rastro na floresta. Cernunnos pertence ao segundo tipo.

Para a inteligência comum, um deus precisa de um mito escrito. Para o iniciado, como nos ensina Eliphas Levi, um deus vive na sua imagem. E a imagem de Cernunnos sobreviveu quando seu nome quase foi apagado. É o que Franz Bardon chamaria de uma inteligência da Esfera da Terra, da zona que rege a vida, a forma e a geração.

O que hoje o neopaganismo apresenta como "o consorte da Deusa Tríplice" é uma construção moderna. Não há evidência acadêmica de que os celtas celebravam esse casal como é feito em rituais atuais. O que há é algo mais antigo e mais profundo: um arquétipo.

1. O Vestígio Histórico - Uma única inscrição

O nome Cernunnos vem de um único lugar. Em 1710, sob a Catedral de Notre-Dame em Paris, operários encontraram pilares romanos usados para conter o rio Sena. Um deles ficou conhecido como o Pilar dos Barqueiros, encomendado por uma guilda de marinheiros gauleses no século I d.C.

Ali, em pedra, ao lado de Júpiter, Vulcano, Fortuna e dos deuses gauleses Esus e Smertrios, está ele. Sentado, com chifres de cervo, um torque em cada chifre, e a inscrição: CERNUNNOS.

Uma segunda evidência linguística existe em Luxemburgo, numa placa votiva que diz Deo Ceruninco - ao Deus Cerunincos. Sem imagem, apenas o nome, o que prova que o nome era conhecido fora de Paris.

É tudo o que temos de nome. O resto é imagem.

2. O Arquétipo Espalhado

Se o nome é raro, a imagem é viral, no sentido hermético. Mais de 50 exemplares do mesmo padrão foram encontrados no norte da Gália e na Celtibéria, o leste da Espanha onde viveram os primeiros celtas.

O padrão é sempre o mesmo e aqui entra a Lei da Analogia:

- Figura masculina, sentada em postura que os romanos chamavam de "budica", pernas cruzadas;
- Chifres de cervo, não de bode;
- Torque no pescoço ou nas mãos - o torque era ouro torcido, símbolo de status, riqueza e de juramento sagrado para os gauleses;
- Animais ao redor, e muitas vezes uma cobra com cabeça de carneiro nas mãos.

Temos dois exemplos maiores:

a) Os Petroglifos de Val Camonica, nos Alpes Italianos. Figuras masculinas com chifres, torques e serpentes, datadas de até VII século a.C. Muito antes de Roma.

b) O Caldeirão de Gundestrup. Encontrado em 1891 numa turfeira na Dinamarca. Prata ricamente trabalhada, datado entre 150 a.C. e 1 a.C. Nele, um homem com chifres de cervo sentado, segurando um torque e uma serpente, cercado por animais. Está hoje no Museu Nacional da Dinamarca, em Copenhague. Apesar de alguns discutirem se é celta ou trácio, o arquétipo é idêntico ao do Pilar.

Os romanos, como bem notou César, comparavam os deuses alheios aos seus. Chamavam isso de Interpretatio Romana. Para eles, todos os deuses eram os mesmos com nomes diferentes. Mas Cernunnos nunca recebeu um equivalente romano. Júpiter, Marte, Mercúrio tinham correspondentes. Cernunnos não. Isso fez os historiadores girarem em círculos. Para a visão de Bardon, isso é simples: era uma inteligência elemental da Terra que Roma não possuía em seu panteão urbano.

3. Filosofia do Símbolo - O que o Chifre ensina

Aqui deixamos a história e entramos no hermetismo, como Levi nos ensina no Dogma e Ritual da Alta Magia. Todo símbolo é uma letra de um alfabeto sagrado.

- O Chifre: Não é maldade. É força vital, o Od vital em sua forma mais bruta. Nas espécies com chifres, o macho com maior carga hormonal vence e perpetua a vida. O chifre é o cetro da natureza. É o princípio ativo, o fogo da geração.
- O Torque: Círculo aberto. Representa a riqueza que não aprisiona, o juramento que pode ser quebrado e refeito. Para os celtas, quebrar um torque era quebrar a palavra.
- A Serpente: Em quase todas as tradições antigas - celta, egípcia, grega - a serpente é sabedoria que rasteja, o Akasha que conhece a terra. Que Cernunnos segure a serpente significa que a força bruta domina e respeita a sabedoria.
- A Forma Meio Humana, Meio Animal: É a ponte. Como explica Bardon sobre as entidades da zona da Terra, elas precisam de uma forma compreensível para o homem. O cervo dá as virtudes - visão, velocidade, fertilidade - o homem dá a consciência.

4. As Lendas Comparativas - A sombra do arquétipo

Por ser um arquétipo e não um deus singular, Cernunnos reaparece com outros nomes:

Herne, o Caçador: No livro de Margaret Murray, O Deus das Bruxas de 1931, ela associa Cernunnos a Herne. Herne era, segundo a lenda, um guarda do Rei Ricardo II, de 1377 a 1399, que se enforcou na floresta de Windsor e passou a assombrar o Great Park como um fantasma com chifres. Shakespeare o cita nas Alegres Comadres de Windsor, no período elizabetano. É o senhor da floresta que não morre.

Pã e Fauno: É o paralelo mais próximo com culto estabelecido. Ora filho de Hermes, ora de Zeus, com chifres e pernas de bode, ligado à natureza, à música, à fertilidade e ao pânico - daí a palavra. Os romanos o chamavam Fauno. Deu origem à constelação de Capricórnio. A diferença iniciática é clara: Pã tem pernas de bode, animal da luxúria desenfreada. Cernunnos tem chifres de cervo, animal da realeza da floresta. Um é o fogo baixo, outro é o fogo que sustenta.

Conclusão - O Laboratório Interior

Cernunnos nos ensina o que Eliphas Levi chamava de Grande Arcano da Natureza: o divino não está apenas no alto, no Zebul celeste, mas também embaixo, na terra úmida.

Ele é a prova de que os povos antigos não adoravam a natureza por ignorância, mas por reconhecimento. Eles viam que todo homem e toda mulher é um laboratório, onde a força do cervo, a riqueza do torque e a sabedoria da serpente precisam estar em equilíbrio.

Ele não é o consorte de ninguém. Ele é o Senhor da Morada de Baixo, assim como Baal Zebul é o Senhor da Morada do Alto. E sem a morada de baixo, nenhuma morada do alto se sustenta.

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